27 de mai de 2013

Crônica: Como me tornei estúpida

Um dia eu abri meu primeiro livro. Um livro que me levou a querer ler mais e mais. Talvez aí esteja o problema. Ou a solução. Ainda não sei.

Uma vez li uma obra chamada Como me tornei estúpido, Martin Page (Editora Rocco, 158 páginas), fala do cara que, depois de ler muito, percebe que sua visão foi ampliada. Um mundo ampliado pode significar muita coisa, principalmente tristeza. E ele não quer mais isso, tenta ser alguém “normal”.

Era estranho ler o livro, pois eu pensava aquilo há algum tempo. Às vezes ser limitado, ter uma visão voltada mais para o nosso mundo pequeno, é tão mais confortável e aceitável pelos demais. Viver uma vida de comodismos, sem se importar com o futuro horrível que quem lê percebe pode ser tão gratificante. Mais feliz.

Há uma frase bíblica – você pode ou não acreditar na Bíblia, mas deve ver seu valor histórico – que diz “quanto mais conhecimento, mais sofrimento, porque quem acumula ciência acumula a dor”, Eclesiastes 1,18. Essa mesma frase, escrita há tantos anos, estava naquele livro de Page, essas pesadas palavras que há muito me acompanham. E eu pensei: li um livro porque eu não deveria ler.

Vejo o mundo de outra forma, talvez muitos leitores concordem comigo. Antes tudo era belo. Hoje quase tudo é triste e feio. Sou uma ambiguidade. Sou realista e sonhadora. Não sei se resignada.

Eu sorrio, mas a cada momento me torno mais triste por dentro. As pessoas à minha volta me fazem permanecer nesse mundo. Talvez eu já tivesse definhado se não fosse por elas. Penso que nos agarramos para nos manter aqui, mesmo tristes.

Não culpo quem só se importa em comprar roupas, bolsas, e afins. Quanto mais sua visão periférica se expande, maior a tristeza acumulada. Ser “estúpido” pode ser uma benção. Quem será o verdadeiro estúpido?

Entretanto, tudo é tão complexo. Ler é mágico, nos leva para outros lugares, nos tira dessa maldade extrema que o mundo está se tornando, e quase sempre percebemos isso porque lemos... É um ciclo sem fim e sem volta.

Mas eu abri um livro. E isso fez com que minha curiosidade sem tamanho exigisse mais e mais. Li muitos e hoje não vivo sem.

Não leio somente por prazer, leio pela fuga desse mundo.

Celly Borges

16 comentários:

  1. Celly, acho que sou o contrário de você. Não leio para fugir pra dentro de outros mundos e sim para aprender estratégias de como andar por este aqui. De vez em quando sinto também essa angústia de que você fala, quem não? E claro que sinto vontade de me isolar. Mas ao mesmo tempo quero fazer algo, fazer a diferença, mesmo que seja só para quem está à minha volta. Quem sabe isso se multiplica em ondas, como as boas ações, os bons pensamentos, as boas histórias. :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana, já tentei ser assim, mas algo é mais forte. Não me isolo porque tenho pessoas queridas por perto, mas tenho certeza de que se não fossem elas, não sei o que seria de mim. Tento fazer algo também, mas é tudo tão complicado.

      É, isso que sinto sempre acaba revertendo em histórias.

      bjos

      Excluir
  2. Celly,
    Eu entendo perfeitamente o que você quer dizer. Esse livro do Martin Page é incrível e traduziu em palavras o que eu já sabia. Neste mundo, felizes são os ignorantes.
    bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, pelo menos não estamos sozinhos nessa rsrs

      bjos

      Excluir
  3. Talvez goste deste post aqui: www.obatomdeclarice.com/2013/05/faco-confesso-e-repito-se-precisar-6.html. Não se trata de propaganda; é, simplesmente, uma recomendação, por tratar do mesmo tema. Saudações letripulistas, até!

    ResponderExcluir
  4. Agora, um comentário meu: há tempo para tudo na vida: tempo de isolamento e tempo de manifestação. Isso também é bíblico (leia-se: humano). Os livros servem para isso: ou ele nos calam ou nos fazem falar. Amo os livros, mas não desprezo ou me omito à vida ao meu redor. Saudacões letripulistas, até! :-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também não desprezo ou me omito, esse é o problema, ler nos faz ter uma visão ampliada sobre o que acontece ao redor, não só as cousas boas, mas principalmente as ruins... Isso me deixa triste.

      Bjos.

      Excluir
  5. Acho q ficção, imaginar outros mundos, realidades ou acontecimentos é justamente oq nos dá um alívio da realidade - que, convenhamos, é massacrante por vezes. Realidade não existe sem sua contraparte; pessoas buscam ficção, assim como nós, mas sem saber. Novelas, big brother, a biblia... tem mil maneiras diferentes. E todo mundo julga a sua fuga melhor q a do outro.
    Nós admitimos q o nosso é fuga msm, e isso deixa tudo diferente. É triste ver os outros tão distantes, tão perdidos. Mas, em terra de cego... hehe =)

    Td de bom aí!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Por isso digo que ciclo, eu preciso dos livros como fuga e eles me dão uma visão maior e assim vejo o mundo, como ele é feio... é tão complexo, né? Mas a gente sobrevive rsrsrs

      bjos

      Excluir
  6. Celly, leste a minha mente, é exatamente assim que eu me sinto. Já comentei com várias pessoas, que eu queria desaprender, saber menos, ser menos, querer menos, mas não sei fazer isso, não consigo. Sempre me ensinaram a ser mais, a querer mais, nunca menos, mas eu fui muito além do que qualquer um esperava, justamente pelo meu amor aos livros, ao conhecimento. Ninguém parece saber como lidar comigo, como me entender. Os livros são a minha salvação, minha fuga mesmo, por isso amo tanto fantasia, o mundo real é terrível demais pra se viver nele o tempo inteiro, eu não aguento.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fabi, é triste dizer também, mas fico feliz em saber que não sou a única douda, rsrs.

      E é verdade, raramente alguém perto de nós nos entende. Isso fica mais pesado para seguir em frente.

      Mas com a fantasia nós vamos, não é? =)

      Excluir
  7. Me sinto exatamente do mesmo jeito. Tenho até uma poesia sobre isso, baseada na observação de pessoas que me rodeiam, principalmente de "amigos" que eu tinha. Eu não seria mais feliz se estivesse rebolando ao som dos "Lek leks" da vida? Eu teria mais amigos, seria mais popular, sairia mais, me divertiria mais... Onde eu encontro amigos que curtiriam um show da Tarja Turunen comigo? É mais fácil encontrar companhia pra ir ao show da Anitta no Barra Music. Eu não seria mais leve se eu ligasse a tv e enchesse minha cabeça com esses programas que ela transmite? Como diz minha mãe: "é uma novela besta, muita bobeira, mas é uma bobeira leve". Talvez eu fosse mais alegre se assistisse ao Zorra Total, ou levaria uma vida mais emocionante se torcesse histericamente e não perdesse um jogo do Vasco da Gama. Pq, com quem eu posso discutir livros bons, não apenas os 50 Tons da vida? Só com minha melhor amiga. Nós, pessoas pensantes, estamos entrando em extinção, estamos nos isolando cada vez mais. Será que ser ignorante é a nossa salvação?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, Karine, assistir à novelas e Zorra Total, por exemplo, poderia ser o nosso interesse, mas nós resolvemos escolher outro lado...

      Ser ignorante é a salvação? Acho que sim. =/

      Excluir
  8. Celly, o que me causa essa sensação é menos a ficção e mais os estudos... Mas a ficção tem um papel fundamental em te informar que não, não é tudo lindo e não tá tudo muito bem. Mas não desejo voltar à ignorância: o importante é saber o que se faz com o conhecimento, como utilizá-lo. E acho mesmo que essa utilização do conhecimento é a coisa mais linda e mais importante do processo todo :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo com você. E isso que o conhecimento fornece, o observar e perceber tudo, como o conhecimento é manipulado, como o mundo é manipulado.

      A utilização do conhecimento para o bem é sensacional, sem dúvida!

      Excluir

Obrigada por dividir sua opinião. Ela é muito importante para o crescimento do blog e de seus leitores.